Tarsila, a Brasileira: “Essa é a personagem mais diferente de mim que eu já fiz”, diz Claudia Raia

A atriz e produtora Claudia Raia embarcará em um de seus papéis mais desafiadores, viver a artista plástica Tarsila do Amaral em um musical que aborda também a importância e relevância da cultura brasileira

Estreia no dia 25 de janeiro, no Teatro Santander, o espetáculo Tarsila: a Brasileira. A produção completamente nacional vai contar a história da vida e carreira da grande pintora Tarsila do Amaral.

Para saber um pouco mais da peça e como foi a sua produção, nossa repórter Tamira Ferreira esteve na coletiva de imprensa com os atores e criadores do musical. Você pode conferir como foi a coletiva e as fotos de duas cenas da peça abaixo:

A hora que entramos no teatro, a cortina do palco se abriu e lá estava: Claudia Raia, Jarbas Homem de Mello, Anna Toledo, José Possi Neto (responsáveis pelo texto e letras das músicas), o compositor Guilherme Terra e o coreógrafo Alonso Barros.

Prontamente, Claudia Raia, atriz que viverá a protagonista Tarsila do Amaral, pega o microfone e começa a explicar sobre a criação do musical.

Claudia Raia: Um musical que a gente está desenvolvendo há três anos. Eu quero contar um pouquinho desse começo que eu estava no meio da pandemia, em uma casa em Bragança Paulista porque a gente estava longe de tudo por causa da pandemia. Foi quando eu recebi um telefonema da Tarsilinha, que é a sobrinha neta da Tarsila, dizendo que queria muito fazer um musical, mas que só faria se fosse comigo no papel e produzindo. Eu fiquei muito lisonjeada, ela disse que, aos seus olhos, eu sou a mulher que tem a força da tia dela, eu achei mais chique ainda isso que ela falou. Eu acreditei nisso. Ela falou: “Eu quero que você seja a maestra dessa obra e a gente quer contar o lado B da Tarsila. A gente quer contar o que nunca foi dito, o que nunca foi escrito, inclusive, nesse musical”. Eu falei: “Eu tenho toda liberdade?”. Ela disse: “Tem”.

Claudia: Ela me ajudou bastante, a família tem nos ajudado bastante, principalmente ao José Possi Neto e a Anna Toledo que foram os autores desse espetáculo, desse texto. Então a gente, na verdade, está contando coisas bastantes polêmicas e contemporâneas. Assuntos que hoje estão em roda, então a gente entende que Tarsila, há 100 anos, ela já era o futuro. Isso é muito importante dizer, nosso espetáculo revela tudo isso de maneira bem efetiva. É um musical com letras da Anna Toledo, que, na verdade, foram extraídas de muitas poesias, muitas coisas escritas por Mário de Andrade, por Oswald de Andrade, que é o Jarbas quem faz, pela própria Tarsila.

Então as letras fazem parte da oratória desses personagens que foram tão fundamentais e importantes na cultura do nosso país. Que mudaram, completamente, o DNA artístico do país. Fora que ele teve uma vida interessantíssima e é sobre isso que a gente conta no espetáculo, permeado pelas suas obras, que a gente vai descobrindo quando ela pintou cada coisa e o porquê.

Após essa introdução, começaram as perguntas.

Sobre o texto, a gente sabe que a vida da Tarsila foi muito ampla, ela tem muitos acontecimentos, como a Claudia falou, no pessoal e no profissional. Como vocês decidiram fazer esse recorte do que colocar no show?

Anna Toledo: Foi um grande desafio, um dos maiores que a gente enfrentou, foi, justamente, escolher quais os eventos da vida da Tarsila a gente iria explorar, investigar e jogar luz. Porque alguns são muito brilhantes já, alguns são muito conhecidos, a gente não poderia deixar de fora, e outros a gente queria jogar a luz, que são, principalmente, os eventos que acontecem depois do movimento antropofágico, depois do casamento dela com o Oswald, depois dela perder tudo, da quebra da bolsa de 29, fazer com que a família dela perdesse toda a riqueza e mudar, completamente, a vida dela. Isso acontece quando ela tem 45 anos e ela morreu com 86 anos, então a gente tem uma vida ainda que a gente teve que estudar, explorar e escolher o que iluminaria.

Anna: Isso foi conversando, a gente leu bastante. Não lemos apenas livros sobre Tarsila, mas as correspondências, os livros sobre as pessoas que viveram com ela. Com isso a gente foi entendendo, conversando e discutindo: “Isso aqui vamos colocar, isso é muita coisa”. E acabou sendo uma questão quase arbitrária sobre o que serve ao espetáculo. No final das contas, a decisão foi essa: o que serve ao espetáculo e o que a gente pretende comunicar com ele. Porque, senão, ia ser só um documentário.

E, além de contar a vida da Tarsila, a gente também quer falar sobre cultura no Brasil, criação no Brasil, sobre ser mulher e artista e como esses eventos serviriam para contar isso que a gente queria.

José Possi Neto: Para mim, foi muito importante esse casamento com a Anna, que tem uma visão muito mais sistemática, porque eu sou muito plural.

Anna Toledo: Eu sou apolíneo, ele é dionisíaco.

José Possi Neto: É verdade! Então foi um casamento, nenhum é fácil, mas não tivemos nenhuma crise no meio. A minha primeira preocupação com a nossa primeira reunião foi dizer que não vamos seguir a cartilha Broadway, vamos criar um espetáculo essencialmente brasileiro. Então, várias vezes, dentro da construção para escrever uma cena, a gente falava: “Isso aqui está Broadway, vamos tirar isso. Qual seria a visão brasileira?”.

Possi: Segundo, estamos falando de uma personagem icônica, da nossa cultura, e como a Anna já disse, não podíamos fazer um documentário, ser didáticos. O espetáculo precisa entreter, precisa seduzir e fascinar o público. Tarsila era uma mulher fascinante, belíssima, foi muito rica, teve uma vida apoteoticamente na cena, no glamour. Mas havia essa segunda face da vida dela, que foi muito dura, muito dramática, e a gente vai ter medo do drama? Não, nunca! Eu acredito que toda comédia só é grande quando ela te faz rir muito e chorar de emoção. Do contrário, você sai, por uma semana lembra das piadas e esquece aquilo. Então nós queremos fazer um espetáculo que ficasse na mente, no coração e na emoção do público.

Quero alertar uma coisa que foi muito importante como tomada de atitude: Nós estamos fazendo uma ficção sobre a Tarsila. Eu já ouvi histórias da Tarsila por tanta gente e elas são diferentes, sobre o mesmo fato, então nós tivemos essa liberdade de construir, de garimpar essa mitologia em torno dela.

Não é só por causa dos quadros dela que ela existe como esse personagem icônico, mas é por causa de todas as histórias que se inventaram sobre ela, sobre o Oswald, a Pagu, a Anita Malfatti que são os nossos personagens principais. Como ser fiel tendo essa liberdade de ser criadores?

Claudia, esse é um espetáculo muito especial para você, não apenas como produtora, mas como atriz, pela personagem que é espetacular. Você contou que, em cena, você deixa de fazer coisas que está acostumada a fazer, como contar piada, é um personagem que não cabe tanto uma piada. Eu queria que você contasse mais alguma coisa desse lado B que você vai fazer em cena, que a gente não está acostumado, ou nunca te viu fazendo.

Claudia Raia: Em primeiro lugar, eu fiz alguns musicais que têm um pouco essa característica da Tarsila, como Beijo da Mulher Aranha, que tem um texto consistente. Sweet Charity que também tem uma dramaturgia bem complexa, então a personagem tem começo, meio e fim.

Às vezes, raro em teatro musical, porque as histórias são mais rasas, mais rápidas e a gente não consegue se aprofundar tanto. Esse espetáculo, talvez, seja o mais denso e para uma comediante, não ter uma piada, é uma coisa que eu vou ter que me acostumar. Eu tento, às vezes, tirar uma pequena piada, mas é só para mim, só para eu me divertir, na verdade, o público nem percebe. Mas é uma personagem que eu demorei para chegar nela, é a personagem mais diferente de mim, que eu já fiz.

Ela não tem nada a ver comigo, ela é o oposto de mim. Tudo que eu sou para fora, tudo que eu sou bailarina, com o peito para frente, falo com todo mundo, dou aquela gargalhada, ela faz tudo ao contrário. Ela é uma mulher enigmática, misteriosa, tímida e a força dela está, justamente, aí. O grande desafio era: fazer essa introspecção dela, sem perder o tônus. Porque, geralmente, quando a personagem é um pouco mais para dentro, acaba ficando fraca. Ao contrário, a força dela está aí. Uma postura completamente diferente, coreografias do Alonso Barros que não parecem ser passo de dança. Conseguiu tirar de mim o meu corpo de bailarina e eu acabar dançando com esse corpo novo que a gente criou para Tarsila.

Pela primeira vez estou cantando as músicas na minha tessitura de contralto, então é muito bacana quando as músicas são compostas para a sua voz, é onde ela brilha. O ouro da nossa voz é a nossa tessitura. É muito difícil, nunca se viu antes uma personagem, protagonista, contralto, não é mezzo soprano, é contralto. E acabou sendo essa a sonoridade da Tarsila, para os arranjos do Guilherme Terra, tudo partiu dessa sonoridade grave, trágica, mas ao mesmo tempo quente e aveludada. Essa composição toda, pela primeira vez, a minha personagem começou pela voz, porque a gente começou a estudar as músicas muito antes, partiu dessa voz, a partir dessa sonoridade, veio tudo junto, o corpo e tudo mais.

Claudia: A Tarsila, como eu disse, uma mulher muito à frente do seu tempo, a gente já vai falar no espetáculo de trisal entre ela, Oswald e Pagu. Todos comentam isso, é uma coisa geral, que eles viveram mesmo uma relação à três, quando hoje é moda, há 100 anos, ela fazia isso. Ela se casou com um homem 22 anos mais novo que ela. De novo, a gente está falando de etarismo, imagina o preconceito que essa mulher viveu. Ela anulou o seu casamento, se divorciou de um casamento com um primo, obrigada, aos 19 anos. Ela conseguiu uma anulação depois de 20 e tantos anos, dada pelo Papa, que é surreal. Uma anulação de um casamento que tinha durado 7 anos e com uma filha. Então são assuntos extremamente contemporâneos e que a gente vem discutindo agora sobre isso. Mas ela já lutava por isso, ela se divorciou e se casou com o Oswald. A família dela, durante a separação, mal falava com ela, os irmãos mal olhavam na cara dela porque ela era separada, ou porque ela morava longe do marido. Tudo isso, na época, era um absoluto escândalo. Então, eu acho que a gente está trazendo, a criação dela, o processo de criação.

O Abaporu que ela criou, na verdade, para o aniversário do Oswald, ela dá de presente para ele. E essa criação dela é muito polêmica porque a gente faz a versão da família: Ela estava no momento de criação, procurando uma inspiração, sozinha, em casa, com uma camisola. Ela vai se despindo, vai tentando achar essa forma, a imagem, até que ela se vê refletida no espelho que era inclinado, ela vê os seus pés maiores, essa imagem deformada, quando vem na cabeça dela o que seria essa imagem da inspiração.

E o Abaporu, na versão que nós estamos contando, na versão que a família defende, o quadro é um autorretrato dela, para o Oswald. O sol, que é amarelo, na verdade, é a íris do olho dele, porque ele tinha um olho amarelado. O cacto, enorme, é o fálico da relação deles. Tudo isso são mil interpretações, como o Possi falou, que ela faz parte do imaginário coletivo, porque a pessoas criam coisas inacreditáveis em relação a ela, que são maravilhosas e a gente aproveita. É um trabalho muito forte, que eu acabo bem cansada, porque é uma drenagem emocional absurda, mas é um papel lindo que estou apaixonada e é o momento certo para contar essa história. É o grito de SOS para a nossa cultura.

Jarbas Homem de Mello também completa falando sobre a importância de seu personagem.

Jarbas Homem de Mello: Os artistas dessa época são responsáveis, realmente, pela identidade cultural do país que a gente tem hoje, por todos os outros grandes movimentos que surgiram a partir daí. Também muito pelo jeito que a gente fala hoje. A Anna falava muito isso para gente, na pesquisa do Mário de Andrade pela música, o linguajar, pelo jeito que se fala no país inteiro, pelos sotaques, dialetos. O Oswald é um grande defensor que você tinha que falar com a gíria da época e trazer isso tudo para a cultura. Deixar isso, realmente, como a cultura do país, não como uma coisa apartada, porque, até então, a poesia era muito lírica, era como se falava em Portugal, eles quebraram com isso de uma maneira abrupta e definitiva.

Jarbas: Na construção do Oswald, eu lembro que cheguei para a Anna um dia e falei: “Eu não tenho registro do Oswald, a não ser fotos e coisas, como eu encontro o caráter dele, como eu encontro a sua personalidade?”. Ela me falou: “Mergulha na obra dele que você vai descobrir a alma do Oswald”. E foi batata! Na hora que eu comecei a ler todos os manifestos, a poesia, os textos, as peças de teatro, está tudo impresso ali. É como se ele falasse na primeira pessoa o tempo inteiro. Então através da literatura dele que eu descobri a alma do Oswald e de todos os outros personagens do espetáculo.

Tarsila, a Brasileira estreia dia 25 de janeiro no Teatro Santader:

Idealização: Raia Produções

Realização: Oito Graus Produções

Data/Temporada: 25 de janeiro até 26 de maio de 2024

Horários: Quintas-feiras, às 20h

Sextas-feiras, às 20h

Sábados, às 16h e 20h

Domingos, às 16h e 20h

Classificação: Livre, menores de 12 anos devem estar acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

Valor dos ingressos: R$25,00 a R$280,00

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Fotos: Tamira Ferreira – Todos os direitos reservados. Proibido reprodução sem autorização.